Uma luz ao lado obscuro da mente

“Cidade da fé” é a alcunha de minha cidade, conhecida nacionalmente como o Santuário de São Francisco das Chagas, no Sertão Central do Ceará, que atrai anualmente multidões de romeiros para celebrar a festa de seu santo padroeiro. Com uma população de cerca de 75.000 pessoas, Canindé possui uma sociedade majoritariamente religiosa e conservadora, o que não impede, contudo, que o “mal do século” penetre nela, causando mais vítimas todos os anos e com uma proeminência entre os mais jovens jamais presenciada – ou notada – antes.

A priori, ressalto o auge do desespero, o qual as pessoas com depressão veem como única maneira de se livrarem da doença: o suicídio. E isso, infelizmente, é o que tem ocorrido em grande escala na sociedade atual, em que, segundo a Organização Mundial da Saúde, a cada 40 segundos uma pessoa tira a própria vida. Na minha cidade, onde a média de suicídios anuais é superior à nacional, foi verificado que o número de óbitos por suicídio mais que triplicou de 2016 a 2017, de acordo com o Ministério Público do Ceará. Fatos tão alarmantes acionam o temor presente no cotidiano a respeito da divulgação de assuntos relacionados à situação, fazendo com que surjam opiniões contrárias ao simples fato de comentar sobre o assunto, ou seja, fingir que ele não existe, como uma forma tentar reduzi-lo a uma endemia rara ou improvável, o que claramente não condiz com a realidade.

Em Canindé, por ser uma cidade relativamente pequena, impressiona a população as ocorrências quase cotidianas de pessoas tirando sua própria vida nos últimos anos, resultado de inúmeros fatores que, na maioria das vezes, são tidos como “invisíveis” ou “inofensivos”. Dessa forma, variadas vertentes são apresentadas na opinião pública a respeito de pensamentos suicidas, visto sob uma óptica religiosa como um fenômeno causado por entidades demoníacas, popularizando frases como “é por falta de Deus” ou “é porque não frequenta a igreja”, principalmente em uma cidade religiosa como a minha. Isso agrava o sentimento de solidão que o indivíduo com depressão sente, já que, além de se sentir abandonado pelo seu próximo, ele se sentirá abandonado inclusive pela própria crença.

Realmente, é compreensível que, mesmo com a enorme repercussão causada pelo suicídio, Canindé ainda tem muito o que evoluir no que tange à saúde mental dos jovens, a começar pela maneira de lidar com a complexa mentalidade deles. Exemplo disso foi o ocorrido com uma estudante de 15 anos de idade, que comoveu a cidade ao cometer suicídio após publicar uma carta de despedida em seu blog, chamado “O lado obscuro da minha mente”, que ela utilizava para desabafar a respeito do que sentia. É necessário que casos como esse sejam estopins para que haja uma reflexão a respeito da negligência perante os sinais de comportamento suicida que os jovens podem apresentar.

Ademais, pontuo a falta de informação como fator determinante da predominância do pensamento errôneo vigente na sociedade canindeense a respeito da questão da depressão que, por ser uma doença, deve ser prevenida e tratada como um problema de saúde pública, e não vista como algo banal. Dessa forma, carece a discussão coletiva sobre os caminhos para o combate a essa doença, como a valorização da profissão do psicólogo e a efetivação da presença desses profissionais em todos os setores sociais, aliado a campanhas em escolas, a fim de conter a lamentável tendência ao suicídio que jovens em idade escolar têm apresentado, com o acesso ao apoio psicológico. De tal maneira, será possível diminuir os índices de suicídio na cidade onde vivo, dando uma “luz” à mente de pessoas.

Autor: Ismael Gomes da Silva Lira (3º Ano Técnico em Informática)

Escola Estadual de Ensino Profissional José Vidal Alves